3.13.2011

O Conto Do Cão Dramático

um dia o cão ficou sozinho em casa: não faz mal, era hábito. especou-se à porta e chorou o que achava que dele seria esperado. roeu uns chinelos. comeu. bebeu. abriu umas gavetas que prontamente esvaziou de todos os objectos que lhe chamaram a atenção e lhe pareceram suficientemente valiosos para arreliar (os cães acham que o que fazem arrelia, aparentemente) quem de direito. comeu. bebeu. mijou nas almofadas da cama como quem se rebela contra o "estabelecimento" (o cão era arraçado de uma coisa qualquer inglesa. fazia traduções à letra). comeu. bebeu. cagou no meio da sala para ter a certeza que o opulento dejecto ficaria bem visível a quem de direito. ía comer. não havia comida. não faz mal. comeu moscas. ía beber. não havia água. não faz mal. cão que se preze, por tentativa e erro, aprende a abrir torneiras ou, pelo menos retretes. ladrou com veemência acrescida junto à porta (não fosse quem de direito pensar que ele se tinha esquecido). fartou-se de moscas. passou aos livros. achou-lhes utilidade melhor e instruiu-se. a retrete secou e a torneira seguiu-lhe o exemplo. desfez algumas almofadas (quem de direito teria que ficar bem ciente do dramatismo do cão dramático). sentou-se contemplativamente frente à photographia do sr. marx (não o groucho. o outro. embora as sobrancelhas, por vezes o levassem à dúvida - parece que as moscas são alucinogéneas. ou talvez fosse o desinfectante da retrete. adiante). decidiu seguir o imperativo histórico e tornar-se uma mais valia. foi trabalhar a recibos verdes. tornou-se precário e acabava as tardes a beber moskovskaya com gelo no café da esquina. criticava a conjuntura e discursava sobre o dramatismo do abandono da progenitura. o veterinário prescreveu-lhe comprimidos para o fígado e não lhe cobrou nada: afinal este não era um qualquer cão trabalhador: era também um cão dramático.

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